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Rascunho:A cura do Alcorão

De wikishia

A Cura do Alcorão refere-se ao efeito dos versículos do Alcorão na melhoria das enfermidades doutrinárias, morais e físicas, sendo considerada uma de suas características extramateriais. Os exegetas consideram as contaminações espirituais, como a incredulidade, a hipocrisia e a inveja, manifestações da "doença do coração", que podem ser corrigidas por meio da orientação do Alcorão. Algumas suratas e versículos, incluindo al-Fatihah, al-Nas, al-Falaq e Ayat al-Kursi, são recomendados nas tradições para o tratamento de enfermidades.

Esse efeito é atribuído à vontade e ao poder divinos e é considerado para além dos meios naturais. Contudo, na tradição do Profeta e dos Ahl al-Bait, o Alcorão é utilizado juntamente com medicamentos e médicos. Além disso, experiências de fiéis, relatos de alguns estudiosos xiitas e resultados de estudos psicológicos apontam para o efeito do Alcorão no tratamento de enfermidades, desde que haja certeza quanto à sua eficácia, sinceridade na recitação e prática dos ensinamentos do Alcorão.

Conceituação e relevância

A cura do Alcorão significa o tratamento ou a melhoria de enfermidades por meio dos versículos do Alcorão[1] e constitui uma de suas características extramateriais.[2] Segundo os exegetas, todos os versículos do Alcorão possuem propriedades curativas[3] e consideram o versículo 82 da surata al-Isra (17:82) como um dos versículos que fazem referência a essa característica.[4] De acordo com alguns pesquisadores, a palavra shifa (cura) e seus derivados foram empregados em seis versículos do Alcorão,[5] que são conhecidos como Ayat al-Shifa (Versículos da Cura).[6]

Segundo algumas tradições,[7] o Alcorão pode ser eficaz no tratamento de enfermidades doutrinárias, morais e até mesmo físicas;[8] contudo, o efeito curativo do Alcorão é considerado condicionado à prática de seus ensinamentos.[9] O Aiatolá Khamenei considera o Alcorão um remédio para as dores das sociedades humanas, tais como as guerras, as opressões e as injustiças.[10]

A relação entre a cura do Alcorão e a vontade divina

A cura do Alcorão é atribuída à vontade e ao poder de Deus; isto é, Deus pode realizar a cura dos enfermos para além dos meios naturais. Conforme mencionado no Alcorão, Jesus (a.s.) curava os enfermos e ressuscitava os mortos com a permissão[11] divina.[12] Contudo, na análise das tradições sobre as propriedades das suratas e a cura do Alcorão, foram apresentadas diferentes perspectivas.[13] Um grupo considera a cura pelo Alcorão semelhante a um medicamento eficaz para todos. Alguns consideram a cura uma graça divina e uma forma de karamah (prodígio concedido a um servo piedoso, distinto do milagre profético). Outros acreditam que a recitação de algumas suratas apenas cria as condições para o efeito curativo, e não que seja a causa direta da recuperação.[14] Segundo alguns pesquisadores, na tradição do Profeta Muhammad e dos Ahl al-Bait, o Alcorão era utilizado juntamente com medicamentos e médicos, mas não se deve reduzi-lo ao nível de um medicamento comum; suas propriedades devem ser interpretadas em conjunto com os meios naturais.[15]

O impacto do Alcorão no tratamento de enfermidades espirituais e psíquicas

Abdullah Javadi Amoli:

“O Alcorão cura todas as enfermidades doutrinárias e morais do ser humano; cura a ignorância, que é a pior enfermidade interior, por meio do conhecimento; a dúvida, por meio da certeza; a tristeza e a aflição, por meio da tranquilidade; o medo e o pavor, por meio da serenidade e da esperança; e elimina a ansiedade e a preocupação com o futuro por meio da determinação e da firmeza.”

Javadi Amoli, Tafsir Mawdui-ye Quran-e Karim, 2002, pág. 236.

O Alcorão é considerado curativo para as enfermidades espirituais.[16] O Aiatolá Makarem Shirazi, exegeta xiita, ao interpretar o versículo 67 da sura Yunus,[17] considera que a expressão "doença do coração" se refere às contaminações espirituais e interiores.[18] Essa categoria de enfermidades é definida no âmbito das crenças, como a incredulidade e o politeísmo, e da moral e da conduta, como a inveja, a avareza e o rancor.[19] Segundo a concepção de Fakhr al-Razi, um dos exegetas sunitas, o Alcorão corrige as crenças incorretas ao explicar as verdades do universo e apresentar a realidade do ser humano, sua origem e seu destino final; além disso, ao expor os vícios morais, proporciona as condições para seu tratamento e orienta o ser humano em direção às virtudes.[20]

Com base em uma tradição transmitida pelo Imam Ali (a.s.),[21] a incredulidade, a hipocrisia e o extravio estão entre as mais importantes enfermidades espirituais do ser humano, e o Alcorão é apresentado como sua cura.[22] Ali Nassiri, fundador do Instituto de Conhecimentos da Revelação e do Intelecto, com base no versículo 57 da sura Yunus e no versículo 82 da sura al-Isra, sustenta que o Alcorão possui capacidade curativa para todos os seres humanos no que se refere às enfermidades doutrinárias e para os crentes no que se refere às enfermidades morais.[23]

O impacto do Alcorão na redução da ansiedade

Segundo alguns pesquisadores, estudos psicológicos demonstram que a recitação e a compreensão do Alcorão são eficazes na redução da ansiedade e da depressão.[24] Estudos realizados com diferentes grupos, como gestantes e pacientes, indicam que ouvir a recitação do Alcorão contribui para a melhoria do estado psíquico e físico.[25] Além disso, a prática contínua da recitação diária do Alcorão durante seis meses esteve associada a uma redução significativa da ansiedade entre os jovens.[26]

O impacto do Alcorão no tratamento de enfermidades físicas

Segundo a opinião de alguns exegetas, o Alcorão pode ser eficaz no tratamento de algumas enfermidades físicas.[27] A recitação, o tabarruk (busca de bênçãos) e a prática de seus ensinamentos são considerados fatores relacionados a esse efeito.[28] Além disso, alguns pesquisadores, ao apontarem para os ensinamentos do Alcorão sobre a saúde em temas como alimentação,[29] higiene sexual,[30] jejum[31] e consumo de mel,[32] defendem que o Alcorão pode desempenhar um papel na saúde e na melhoria das enfermidades por meio de preceitos preventivos.[33]

Tradições sobre a cura do Alcorão

Foram transmitidas muitas tradições sobre as propriedades dos versículos e das suratas do Alcorão;[34] com base nessas tradições, algumas suratas foram recomendadas para o tratamento de determinadas enfermidades.[35] Entre elas:

  • Surata al-Fatihah: para o tratamento de todas as enfermidades;[36]
  • Suratas al-Nas e al-Falaq: para o alívio de dores intensas;[37]
  • Ayat al-Kursi: para afastar males e prevenir a paralisia;[38] em um hadith, também é relatado que o Imam Ali (a.s.) recomendou a recitação de Ayat al-Kursi para o tratamento de enfermidades oculares.[39]
  • O versículo "Wa in yakad..."[40]: para afastar o mau-olhado.[41]

Contudo, esses efeitos são considerados condicionados à crença na cura do Alcorão.[42] Alguns estudiosos, como Sayyid Abul Qassim al-Khoei, manifestaram dúvidas quanto à cadeia de transmissão desse tipo de hadith e consideram alguns deles invenções dos narradores.[43]

Experiências de cura pelo Alcorão

Experiências e relatos indicam que alguns versículos e suratas do Alcorão foram eficazes no tratamento de enfermidades físicas.[44] O Aiatolá Javadi Amoli considera a cura do Alcorão em relação às enfermidades físicas como algo comprovado pela experiência.[45] Mulla Saleh Mazandarani, um dos estudiosos do século XI AH, acredita que qualquer versículo do Alcorão — especialmente quando recitado com sinceridade e certeza — pode ser curativo, e que a surata al-Fatihah foi experimentada no tratamento de diversos tipos de enfermidades, especialmente quando recitada setenta vezes.[46] Muhammad Taqi Majlissi também relata a cura de mais de mil enfermos, algo que ele próprio testemunhou, por meio da recitação da surata al-Fatihah.[47]

Referências

  1. ↑ Farāhīdī, Kitāb al-ʿAyn, palavra «Shafī».
  2. ↑ Naṣīrī, Tafsīr-i Mawḍūʿī-yi Qurʾān-i Karīm, pág. 55.
  3. ↑ Fakhr al-Rāzī, al-Tafsīr al-Kabīr, vol. 21, pág. 390; Ṭabāṭabāʾī, al-Mīzān, vol. 13, pág. 184.
  4. ↑ Por exemplo, consulte: Hāshimī Rafsanjānī e Muḥaqqiqān, Farhang-i Qurʾān, vol. 17, pág. 302; Riḍāʾī Iṣfahānī e um grupo de pesquisadores, Tafsīr-i Qurʾān-i Mihr, vol. 12, pág. 143; Muḥammadī, «Nigāhī bih Shifābakhshī-yi Qurʾān-i Karīm», pág. 195.
  5. ↑ Alcorão, 17:82; 10:57; 41:44; 9:14; 16:69; 26:80.
  6. ↑ Muḥsinī, «Qurʾān wa Shifābakhshī-yi Bīmārī-hā-yi Rūḥī wa Jismī», pág. 59.
  7. ↑ Por exemplo, consulte: Imām ʿAskarī (a), al-Tafsīr al-Mansūb ilā al-Imām al-ʿAskarī, pág. 14; Nahj al-Balāghah, taṣḥīḥ Ṣubḥī Ṣāliḥ, khuṭbah 176, pág. 252.
  8. ↑ Saʿdī, Pursish wa Pāsukh-i Qirāʾat-i Qurʾān, vol. 32, pág. 33; Furqānī e Ḥaydarī, Āshnāʾī bā Tafsīr wa Rūsh-hā-yi Tafsīrī, pág. 20.
  9. ↑ Makārim Shīrāzī, Tafsīr Namūnah, vol. 12, pág. 242.
  10. ↑ در دیدار شرکت‌کنندگان در مسابقات بین‌المللی قرآن», site de informações do Escritório para a Preservação e Publicação das Obras do Aiatolá Sayyid ʿAlī Khāmeneʾī.
  11. ↑ Alcorão, 5:110; 3:49.
  12. ↑ Muḥsinī, «Qurʾān wa Shifābakhshī-yi Bīmārī-hā-yi Rūḥī wa Jismī», pág. 59.
  13. ↑ ʿAlāʾī e Riḍāʾī, «Darmān-i Iʿjāzāmīz-i Qurʾān», págs. 83–85.
  14. ↑ ʿAlāʾī e Riḍāʾī, «Darmān-i Iʿjāzāmīz-i Qurʾān», págs. 84–85.
  15. ↑ ʿAlāʾī e Riḍāʾī, «Darmān-i Iʿjāzāmīz-i Qurʾān», págs. 84–85.
  16. ↑ Jawādī Āmulī, Tafsīr-i Mawḍūʿī-yi Qurʾān-i Karīm, pág. 236; Muḥsinī, «Qurʾān wa Shifābakhshī-yi Bīmārī-hā-yi Rūḥī wa Jismī», pág. 57.
  17. ↑ Alcorão, 10:57.
  18. ↑ Makārim Shīrāzī, Tafsīr Namūnah, vol. 8, pág. 318.
  19. ↑ Muḥsinī, «Qurʾān wa Shifābakhshī-yi Bīmārī-hā-yi Rūḥī wa Jismī», pág. 57; Naṣīrī, Tafsīr-i Mawḍūʿī-yi Qurʾān-i Karīm, pág. 56.
  20. ↑ Fakhr al-Rāzī, al-Tafsīr al-Kabīr, vol. 21, págs. 389–390.
  21. ↑ Nahj al-Balāghah, taṣḥīḥ Ṣubḥī Ṣāliḥ, khuṭbah 176, pág. 252; Daylamī, Aʿlām al-Dīn fī Ṣifāt al-Muʾminīn, pág. 105.
  22. ↑ Naṣīrī, Tafsīr-i Mawḍūʿī-yi Qurʾān-i Karīm, pág. 57.
  23. ↑ Naṣīrī, Tafsīr-i Mawḍūʿī-yi Qurʾān-i Karīm, pág. 56.
  24. ↑ Jamʿī az Nawīsandagān, Majmūʿah-yi Maqālāt-i Awwalīn Hamāyish-i Naqsh-i Dīn dar Bihdāsht-i Ruwān, pág. 88.
  25. ↑ Muḥsinzādah e Ḥusaynī, «Taʾthīr-i Qurʾān dar Darmān-i Bīmārī-hā, Murūrī bar Muṭāliʿāt», pág. 25.
  26. ↑ Jamʿī az Nawīsandagān, Majmūʿah-yi Maqālāt-i Awwalīn Hamāyish-i Naqsh-i Dīn dar Bihdāsht-i Ruwān, pág. 79.
  27. ↑ Por exemplo, consulte: Shaikh Ṭūsī, al-Tibyān, vol. 6, pág. 513; Ṭabrisī, Majmaʿ al-Bayān, vol. 6, pág. 673; Abū al-Futūḥ Rāzī, Rawḍ al-Jinān, vol. 12, pág. 277; Fayḍ Kāshānī, Tafsīr al-Ṣāfī, vol. 3, pág. 213.
  28. ↑ Muḥammadī, «Nigāhī bih Shifābakhshī-yi Qurʾān-i Karīm», pág. 196; Muḥsinī, «Qurʾān wa Shifābakhshī-yi Bīmārī-hā-yi Rūḥī wa Jismī», pág. 61.
  29. ↑ Alcorão, 7:31 e 6:145.
  30. ↑ Alcorão, 2:222 e 17:32.
  31. ↑ Alcorão, 33:35.
  32. ↑ Alcorão, 16:68–69.
  33. ↑ ʿAlāʾī e Riżāʾī, Mabānī-i bihdāsht va sālāmāt dar Qurʾān, pág. 138.
  34. ↑ Por exemplo, consulte Ibn-Ḥayyūn, Daʿāʾim al-Islām, vol. 2, pág. 146; Ibn-Shuʿbah Ḥarrānī, Tuḥaf al-ʿuqūl, pág. 106; Shaikh Ṣadūq, al-Khiṣāl, vol. 2, pág. 616; Quṭb al-Dīn Rāvandī, al-Daʿavāt, pág. 188.
  35. ↑ Naṣīrī, Tafsīr-i mawżūʿī-i Qurʾān-i Karīm, pág. 57.
  36. ↑ Kulaynī, al-Kāfī, vol. 2, pág. 623, ḥadīth 15; Shaikh Ṭūsī, al-Amālī, pág. 284, ḥadīth 553.
  37. ↑ Baḥrānī, al-Burhān, vol. 5, pág. 8120; Majlisī, Biḥār al-anvār, vol. 18, pág. 71.
  38. ↑ Kulaynī, al-Kāfī, vol. 2, pág. 621, ḥadīth 8; Shaikh Ṣadūq, Thavāb al-aʿmāl, pág. 105.
  39. ↑ Ibn-Shuʿbah Ḥarrānī, Tuḥaf al-ʿuqūl, pág. 106; Shaikh Ṣadūq, al-Khiṣāl, vol. 2, pág. 616.
  40. ↑ Shuʿayrī, Jāmiʿ al-akhbār, Maṭbaʿat Ḥaydarīyah, pág. 157; Majlisī, Biḥār al-anvār, vol. 92, pág. 132.
  41. ↑ Naṣīrī, Tafsīr-i mawżūʿī-i Qurʾān-i Karīm, pág. 57; Moḥsenī, Qurʾān e shifābakhshī-i bimārīhā-i rūḥī e jis-mī, pág. 62.
  42. ↑ Moḥammadī, Nigāhī bih shifābakhshī-i Qurʾān-i Karīm, pág. 196.
  43. ↑ Khūʾī, al-Bayān, págs. 28–29.
  44. ↑ Moḥsenī, Qurʾān e shifābakhshī-i bimārīhā-i rūḥī e jis-mī, pág. 63.
  45. ↑ 1. Javādī Āmulī, Tafsīr-i Tasnīm, vol. 1, pág. 263.
  46. ↑ Māzandarānī, al-Kāfī, al-uṣūl va-al-rawżah.
  47. ↑ Majlisī-i Avval, Rawżat al-muttaqīn, vol. 13, pág. 137.

Bibliografia

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