Rascunho:Casamentos do Profeta Muhammad (s.a.a.s.)
Os casamentos do Profeta Muhammad (s.a.a.s.) e a questão de sua poligamia constituem um tema que tem despertado debates substanciais em diversas obras e estudos acadêmicos. Entre certos autores — especialmente escritores cristãos anteriores ao século XX — tornou-se comum interpretar tais casamentos como motivados por desejo carnal ou busca de prazer. Também é recorrente a alegação de que o Profeta teria se casado repetidas vezes com o objetivo de gerar um filho homem.
Sayyid Murtadá Askari, historiador e especialista xiita em hadith, identifica essas acusações como produto de narrativas atribuídas a Aisha, as quais, segundo ele, apresentam o Profeta (s.a.a.s.) de forma incompatível com sua dignidade e caráter moral. A falta de familiaridade de muitos críticos com as fontes primárias do Islã, somada à influência de paradigmas cristãos ou materialistas, teria contribuído para tais interpretações equivocadas.
Em contrapartida, um amplo número de estudiosos rejeita essas alegações apoiando-se nos 25 anos de vida conjugal do Profeta (s.a.a.s.) com sua primeira esposa, Khadija (s.a.), que era mais velha do que ele. Esse dado é significativo, sobretudo considerando que a poligamia era prática comum e socialmente aceita na Península Arábica pré-islâmica.
De acordo com as fontes históricas, todas as mulheres com quem o Profeta (s.a.a.s.) se casou após o falecimento de Khadija, com exceção de Aisha, eram viúvas, e várias delas tinham mais de cinquenta anos. Observa-se ainda que essas mulheres pertenciam a clãs politicamente relevantes — inclusive tribos que antes se opunham ao Profeta — e que a maior parte desses matrimônios ocorreu durante períodos marcados por conflitos militares. Tais elementos indicam que esses casamentos possuíam caráter predominantemente social e político, voltados a consolidar alianças e fortalecer a comunidade muçulmana.
Ademais, alguns casamentos foram motivados por razões humanitárias, como a proteção e a assistência a mulheres viúvas ou em situação de vulnerabilidade. O casamento com Zainab bint Jahsh, por sua vez, é compreendido — segundo a perspectiva xiita — como cumprimento de um mandamento divino destinado a abolir a norma pré-islâmica que equiparava o filho adotivo ao filho biológico. As esposas do Profeta também desempenharam papel fundamental na transmissão e no ensino das normas religiosas.
Posição e Importância
Artigo principal: Esposas do Profeta (s.a.a.s.)
O Profeta Muhammad (s.a.a.s.) contraiu matrimônio diversas vezes ao longo de sua vida.[1] Os muçulmanos creem que o Mensageiro de Deus (s.a.a.s.) possuía prerrogativas jurídicas específicas — denominadas khassa’is an-nabi — que lhe permitiam ter mais de quatro esposas.[2]
Entre os historiadores existe divergência quanto ao número exato de esposas do Profeta: alguns mencionam treze mulheres,[3] outros quinze,[4] e há os que registram vinte e uma. Contudo, é consenso que o Profeta (s.a.a.s.) conviveu efetivamente com onze delas.[5] Essa variação resulta tanto de exageros intencionais — voltados a desacreditar o Profeta — quanto de equívocos históricos, confusão entre nomes e desconhecimento de detalhes biográficos.[6]
A pergunta sobre por que tantos casamentos ocorreram na fase final da vida do Profeta (s.a.a.s.) constitui uma das questões centrais nos estudos de sira.[7] Duas correntes gerais se destacam: a primeira — majoritária entre estudiosos muçulmanos — interpreta esses casamentos como motivados por razões políticas, sociais e religiosas; a segunda — comum entre críticos externos ao Islã — atribui tais matrimônios a motivações sexuais, incompatíveis com o caráter ético do Profeta (s.a.a.s.).[8]
Os Casamentos do Profeta: Acusações e Interpretações
Vários estudiosos afirmam que todos os casamentos do Profeta Muhammad (s.a.a.s.) estavam fundamentados em interesses legítimos e em benefícios sociais e religiosos. [9] Por outro lado, alguns orientalistas os interpretaram como expressão de um suposto apetite sexual exacerbado.[10]
Carl Ernst observa que muitos escritores cristãos consideram a poligamia de Muhammad (s.a.a.s.) como uma fragilidade biográfica, baseada na expectativa cristã do celibato de seus líderes religiosos.[11]
Gustave Le Bon chegou a afirmar que a suposta forte inclinação do Profeta pelas mulheres seria sua única crítica relevante.[12] Em grande parte da literatura ocidental dos séculos XVIII e XIX, quase todos os casamentos foram explicados como resultado de sensualidade ou erotismo.[13] Alguns orientalistas chegaram a tratar o vigor sexual atribuído ao Profeta como característica moral negativa.[14] A maioria dos orientalistas do século XIX adotou abordagem semelhante.[15] Apesar disso, John Davenport, em An Apology for Mohammed and the Koran, negou tais alegações e sugeriu que a multiplicidade de casamentos tinha como objetivo gerar um filho homem.[16] Maxime Rodinson compartilhou visão semelhante.[17]
Hassan Yousefi Eshkevari — intelectual reformista iraniano — argumenta que os casamentos não podem ser explicados de modo uniforme: alguns serviram a interesses comunitários; outros, como os casamentos com ‘Aisha e Hafsa, envolveram também elementos pessoais legítimos.[18–19] Ele interpreta o versículo 52 da surata Al-Aḥzab como reforço dessa análise.[20]
O sábio xiita Muhammad-Hussain Kashif al-Guita’ defendeu que a poliginia demonstrou o autocontrole, a justiça e a grandeza espiritual do Profeta (s.a.a.s.).[21] Carl Ernst acrescenta que Muhammad (s.a.a.s.) deve servir como modelo familiar e social para os muçulmanos, e por isso seu exemplo inclui também a estrutura matrimonial.[22]
Origem das Ambiguidades e Acusações
Diversos fatores contribuíram para críticas aos casamentos do Profeta (s.a.a.s.), entre eles: mentalidade materialista de alguns analistas; influência de ideais cristãos de celibato; comparação com haréns de monarcas muçulmanos; narrativas históricas não autênticas; e limitações metodológicas de pesquisadores ocidentais.[23]
Sayyid Murtadá ‘Askari atribui quase totalmente tais deturpações às tradições transmitidas por ‘Aisha, que retratam o Profeta (s.a.a.s.) como excessivamente entregue às paixões — algo incompatível com sua dignidade moral.[24] Foi essa constatação que o motivou a escrever O Papel de ‘Aisha no Islã.[25]
O pesquisador Hassan ‘Ashuri Langarudi sustentou que muitos orientalistas erraram por não recorrer ao Alcorão, baseando-se apenas em relatos frágeis.[26]
Repercussões Acadêmicas
Vários livros e artigos têm sido dedicados ao estudo dos casamentos do Profeta (s.a.a.s.). ‘Ashuri Langarudi lista dezessete obras em persa e árabe exclusivas sobre o tema.[27] Em Maqala-Shenassi-ye Payambar-e Eslam, dez artigos são catalogados sob “A Filosofia dos Casamentos do Profeta”.[28]
Sayyid Ja‘far Murtadá ‘Amili dedicou uma seção de Al-Sahih min Sirat al-Nabi al-A‘zam ao tema.[29] A obra Os Orientalistas e o Profeta Supremo (s.a.a.s.) também contém dois capítulos sobre o assunto.[30]
Outras obras incluem:
— A Sabedoria da Pluralidade das Esposas do Profeta, de ‘Askari;[31]
— Análise Histórica dos Casamentos do Profeta, de Ja‘farpisheh-Fard;[32]
— A Filosofia dos Casamentos do Profeta, de Shadi;[33]
— Análise e Estudo dos Casamentos do Profeta, de Barhanian;[34]
— Uma Análise dos Casamentos do Profeta e Respostas às Objeções, de ‘Abbasi;[35]
— Nissa’ Hawla al-Rassul, de Istanbuli.[36]
História e Número dos Casamentos
Um ano após o falecimento de Khadija, o Profeta (s.a.a.s.) casou-se com Sawda, uma viúva de cerca de 55 anos.[37]
Em seguida, ainda em Meca, contratou o casamento com ‘Aisha — a única esposa virgem —, consumado apenas em Medina após a Batalha de Badr, no ano 624 d.C. [38]
Seu quarto casamento foi com Hafsa, viúva e filha de ‘Umar ibn al-Khattab, inicialmente rejeitada por ‘Usman e Abu Bakr, segundo alguns relatos, pela ausência de atributos físicos notáveis.[39]
A maioria dos casamentos ocorreu entre os anos 625 e 629 d.C., período de guerras e grandes desafios.[40] O Profeta (s.a.a.s.) casou-se apenas com mulheres de grupos adversários — como coraixitas e judias — e não com mulheres dos Ansar, seus apoiadores.[41] Das onze esposas, nove eram de Meca e duas eram judias.[42]
Com a revelação do versículo 52 de Al-Ahzab, por volta de 629–630 d.C., novos casamentos foram proibidos.[43]
Entre as esposas viúvas e idosas estão:
— Umm Salama, mãe de vários filhos;[44]
— Umm Habiba, filha de Abu Sufyan, cujo esposo morrera na Abissínia;[45]
— Maimuna, com mais de 50 anos, que propôs o casamento ao Profeta;[46]
— Zainab bint Jahsh, casada com o Profeta por ordem divina;[47]
— Zainab bint Khuzaima, conhecida como “Umm al-Massakin”.[48]
Juwairiya e Safiyya foram inicialmente cativas. De acordo com a lei islâmica, o Profeta poderia relacionar-se com elas sem casamento, mas libertou ambas antes de qualquer relação e se casou apenas com seu consentimento. [49–50]
Razões Apresentadas para os Casamentos
Diversos estudiosos — muçulmanos e não muçulmanos — analisam os casamentos sob perspectivas sociais, políticas, religiosas e jurídicas, refutando explicações reducionistas.
Monogamia Prolongada com Khadija
O Profeta (s.a.a.s.) casou-se aos 25 anos com Khadija, então com cerca de 40 anos. [51–52] Viveu com ela por 25 anos sem contrair outro matrimônio, [53–55] o que representa dois terços de sua vida conjugal. [56]
‘Allameh Ṭabataba’i observa que esse dado invalida completamente a hipótese de motivação libidinosa.[57] Todos os casamentos posteriores ocorreram apenas entre os 54 e 61 anos.[58]
A alegação de descontentamento com a idade de Khadija é contradita por evidências históricas: seu caráter excepcional,[59] o amor e respeito dedicados a ela; sua posição como uma das quatro maiores mulheres do Paraíso;[60] e o fato de o Profeta não ter se casado durante sua vida nem imediatamente após seu falecimento. [61–62]
Alguns historiadores consideram, inclusive, que ela tinha cerca de 25 anos no casamento, e não 40.[63]
Casamento com mulheres viúvas e idosas
Tabataba’i argumenta que, se o objetivo fosse satisfação carnal, o Profeta (s.a.a.s.) teria buscado mulheres jovens, e não viúvas idosas.[64] Contudo, seu primeiro casamento após Khadija foi com Sawda;[65] e todas as esposas, exceto ‘Aisha, eram viúvas.[66]
Crítica à hipótese de que buscava ter um filho homem
Aponta-se que:
1. Não há evidência histórica dessa intenção;
2. Se fosse esse o objetivo, casaria com mulheres jovens;
3. Teria procurado novos casamentos quando perdeu seus filhos, e não após os 50 anos;
4. Poderia ter filhos com suas cativas sem casamento.[67]
Casamentos com finalidades religiosas e políticas
Estudiosos afirmam que os casamentos do Profeta (s.a.a.s.) tinham propósitos sociais e religiosos elevados.[68]
Ibn Khaldun observa que alianças matrimoniais eram um dos métodos mais eficazes para evitar guerras.[69]
Exemplos:
— Aisha, da tribo Banu Taim, fortalecia relações com Quraish;[70]
— Safiyya, filha de um líder judeu, aproximava os Banu Nadir;[71]
— Umm Habiba, filha de Abu Sufyan, facilitou a aproximação do pai ao Islã;[72]
— Juwairiya, cujo casamento resultou na libertação de 200 famílias, levando à conversão dos Banu Mustaliq.[73]
Opiniões de estudiosos ocidentais
Carl Ernst identifica clara função política nos casamentos.[74]
David Margoliouth conclui que muitos casamentos eram políticos e só ocorreram após a morte de Khadija, quando tais alianças se tornaram possíveis. [75–76]
Promoção das Normas Religiosas pelas Esposas do Profeta
O casamento com ‘Aisha também é explicado como meio de difundir os ensinamentos religiosos entre as mulheres, dada sua inteligência e participação na transmissão de hadith. [77–78]
Casamentos com motivações éticas e humanitárias
Exemplos incluem:
— Proteção de viúvas e vulneráveis;[79]
— Apoio a mulheres perseguidas por aceitarem o Islã (caso de Umm Habiba);[80]
— Amparo à pobreza e aos órfãos (Umm Salama);[81]
— Proteção de Sawda, que poderia ser morta ou forçada a regressar ao paganismo;[82]
— Honra à generosidade de Zainab bint Khuzaima;[83]
— Promoção da libertação de cativos por meio dos casamentos com Juwairiya e Safiyya.[84]
Casamento para romper tradições pré-islâmicas
Artigo principal: O casamento do Profeta (s.a.a.s.) com Zainab bint Jahsh
Esse casamento foi ordenado para abolir o costume de tratar o filho adotivo como filho biológico e de considerar ilícito casar-se com a ex-esposa do filho adotivo. [85–86]
O pesquisador americano de estudos islâmicos e árabes David Powers interpreta o episódio como forma de impedir futuras reivindicações de descendência profética por parte de pretendentes ao legado do Profeta.[87]